Algumas pessoas criticam as administrações municipais pelos gastos excessivos em algumas obras. A cidade natal do meu pai, por exemplo, construiu uma mega estrutura de saúde. Um posto de saúde para uma população de 7 mil habitantes com capacidade para atender a mais de 50 pessoas/dia. Um posto de saúde com capacidade de atender a metade disto já resolveria o problema.
Aqui na nossa região, e em nossa cidade, podemos ver claramente isto. Eu não tenho méritos, por exemplo, para criticar o estádio Louis Ensch, mas ele me parece um enorme elefante branco. Não vejo ele sendo utilizado. Vejo utilização do estádio Gentil Bicalho, que é central, e onde muitos torneios de futebol são realizados. Mas aquele estádio está lá, grande, com potencial para até abrigar um complexo esportivo ao redor (se cortassem aquele acesso ao Ideal, imagine um ginásio coberto do lado). Mas é uma opinião numa área que não domino, que é a dos esportes (nunca passei de um inimigo da bola. Ela é quadrada e misteriosa para mim).
Na área de saúde, vejo acontecer a mesma coisa. Primeiro, o PA. Para quem não lembra, o PA foi uma cooperativa de comércio, onde funcionou um projeto que tinha tudo para dar certo, mas por problemas operacionais e planos econômicos, sucumbiu. O prédio, na sua estrutura, não teria a menor condição logística de atender a um posto de saúde. Mas fizeram "puxadinhos", subiram divisórias, construiram "paredes" e ele virou o PA. Deu certo até certo ponto, pois hoje não é possível instalar equipamentos numa estrutura que foi pensada com outro objetivo, sem fazer reformas em partes como hidráulica e elétrica.
O Santa Madalena é a mesma coisa. Foi "aproveitada" uma estrutura de uma rodoviária. Se você contar que uma rodoviária virou um hospital, muitas pessoas acreditarão que você está contando uma grande piada, ou abusando da inteligência do seu interlocutor. Mas em nossa cidade, costumamos ter a idéia de reformar prédios que foram construidos com uma finalidade, e usarmos para outra (já pensaram nos exemplos? São inúmeros!).
Anteriormente você tinha 2 pisos. Agora o Santa Madalena conta com 3 pisos. Construiu-se engenhosamente um piso a mais, com materiais de qualidade. Mas antes de iniciar esta obra, não verificaram o que era a estrutura anterior. Agora, descobrem uma nascente de água. Sim, um hospital que tem uma nascente de água, até aí poderia ser considerado como estratégico, já que este recurso é um bem precioso. Mas a nascente de água está saindo de inúmeras paredes! Sim, você, caso fique hospitalizado, poderá apenas se esfregar na parede para fazer sua higiene! Água encanada é para os fracos! E a grana que foi construida! Poxa, um foco cirúrgico precisa de um teto no mínimo de 2,5m. O do nosso hospital tem apenas 1,9! Imagine o médico operando e batendo com a cabeça no arco, durante uma cirurgia de emergencia, num pronto socorro! Fora que jamais poderá ter atendimento alguem que ultrapasse a altura de 1,9m! Segregação dos altinhos é para a Xuxa!
Quando falaram em usar a estrutura da Rodoviária para um hospital, fiquei pensando: eles devem derrubar o prédio inteiro, e construir outro. Ou então no máximo, eles iriam expandir a área e partir para algo com poucos leitos, como um hospital dia. Mas não. Um hospital com porte razoável, com 2 blocos cirúrgicos de "primeira linha".
Não sou formado em administração hospitalar. Sou analista de sistemas, e trabalho a mais de 10 anos na área de saúde. Conheço sistemas hospitalares, sistemas de planos de saúde, já trabalhei anos no HM com muito orgulho. E nunca vi um disparate tão grande quanto construir um hospital municipal aproveitando um elefante branco (A antiga rodoviária era tão megalomaníaca, que parecia que pelo menos tinha ônibus saindo dela de 10 em 10 minutos).
O leitor deve estar se perguntando: você, o que faria no lugar do secretário de saúde e do prefeito, para resolver esta situação?
Primeiro, jamais faria um hospital perto de um posto de gasolina. Os riscos de contaminação por combustíveis, embora remotos, existem. Se vazar gasolina no esgoto, qual será o fluxo de água que ele vai seguir? Claro, direto para o Santa Madalena! E temos 3 postos na área.
Segundo, para onde Monlevade tem crescido nos últimos anos? Não seria mais conveniente e estratégico construir um hospital na região do Cruzeiro Celeste? Próximo a BR 381? Quantas vidas poderiam ser salvas se o socorro não tivesse que atravessar praticamente 7 km a mais para chegar no PS do HM? Se tivesse um hospital preparado para atender emergências de baixa e média complexidade, garanto, uma parcela da sociedade poderia ser muito bem atendida, além de atender a pessoas que estão numa situação mais crítica.
Terceiro, a alegação que hoje o PA tem internações de baixa complexidade, com pessoas que ficam 2, 3 dias lá em observação, e que o PA recebe apenas o valor ambulatorial é errado. E é uma postura da Secretaria de Saúde desde a época anterior ao PA que faço. O PA não é para ter atendimentos superiores a 12 horas. Se tiver, é porque alguma coisa está errada na gestão. PA = Pronto Atendimento. Qualquer pessoa que fique mais de 12 horas em observação já indica a ineficiencia no cuidado. Ou se transfere para o hospital ou dê a resolução do problema em menos de 12 horas. Uma vez conversando com a ex-secretária Luciana, ela me falou "Eu fico com pacientes internados no PA, e se tivesse o Hospital, receberia a AIH, que é um valor maior". Eu respondi informando que dependendo da patologia, o valor seria quase o mesmo.
Quarto: Se vou construir um hospital, vou ter que saber que meu orçamento na área vai ter que ser superior ao que se preconiza nos tetos orçamentários de 25%. De 30 a 35% no mínimo de despesa na área de saúde, pensando no tamanho da nossa cidade, ou seja, 10% a mais do que prevê a lei. E como conseguiria isto? Cortando de outros setores. E quem vai perder a grana? Educação? Cultura? Esporte? Meio Ambiente? Ação Social? Como justificar para a escola municipal que a merenda vai ser modificada para que os meninos comam fubá uma semana sim, outra semana não? Ou que a cesta básica vai tirar metade dos itens? Ou que as bolas agora terão que ser feitas de meia?
Hospitais gastam medicamentos, muitos com prazos de validade pequenos. Se em grandes hospitais existe a perda de medicamentos por vencimento, imagine em hospitais que tem que fazer suas compras baseada em licitação (vai me dizer que você não pensou que aquele medicamento que custa 1000 reais e que só vai usar 1 vez, cujo prazo de validade é de 100 dias vai esperar uma licitação a cada 6 meses? Fora a logística de escalas, adicionais, pessoal de higiene, rouparia, nutrição, enfermagem, clínicos, cirurgiões, pediatras, etc vão trabalhar de graça pra vc? Ou recebendo de 2 em 2 meses para que você consiga fazer seu fluxo de caixa?
Quinto: O hospital vai atender somente SUS? Se ele quiser sobreviver por um curto período de tempo, vai ser gerido apenas com serviços do SUS. Se ele quiser sobreviver por mais tempo, vou estabelecer a regra de que pacientes de outros municípios, quem paga ou é o consórcio intermunicipal de saúde ou é a prefeitura da cidade do paciente. Para gerir tudo, vou botar o que a tecnologia pode me oferecer na gestão: controle rígido de estoque, prescrições eletrônicas, mínimo de papel circulando, softwares livres como sistemas operacionais, controle máximo das despesas, manutenção eficiente. Controle, indicadores, metas, pagamento não por procedimento mas por resolutividade, nada de exames superfluos sendo realizados. Só com bons sistemas se descobre onde o sangue financeiro está escorrendo. O dinheiro escorre não na luva de procedimento, mas em curativos mal feitos, exames desnecessários, em falta de controle de estoque.
Sexto: Comprometimento da sociedade. O Hospital é para atender a casos de emergência. Hospital não é consultório médico, não é para ficar medindo pressão, não é para aplicar vacina. Hospital tem que ser tratativo, não "consultivo". Nada de "me dá um remédio para dor de cabeça" ou então "estou precisando de dormir. Me dá uma receita de um calmante".
Isto tem que ser resolvido na rede básica. Posto de saúde é para isto. Se eles não funcionam direito, então para que ter um hospital? Se ele não conseguir resolver estas situações, não adiantará nada um hospital, porque você só vai transferir o problema.
Até que me provem o contrário, acredito que não teremos a solução deste problema, como muitos querem, e outros bloguem.
Subo a serra pensando: "Prandini inaugura o Santa Madalena porque recebeu uma graninha e deixa a quebradeira para outro ou faz a quebradeira agora e deixa a bola para outro?"
Sexta-feira, Julho 03, 2009
Antes de criticar, entenda
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